O apartamento novo do Theo tinha tudo o que ele pedira: boa luz, uma rua sossegada e uma cozinha suficientemente grande para duas cadeiras. Tinha também uma voz. Todas as noites, às oito, uma voz grave e teatral rolava através da parede. «O barco está a afundar-se!», trovejava. «Salvem o gato do capitão!» Da primeira vez, o Theo ficou petrificado, com a colher a meio caminho da boca. À terceira noite já encostava um copo à parede como um detetive de um filme antigo, e à quarta já tinha telefonado à irmã. «Acho que o meu apartamento está assombrado», sussurrou. «Por quem?» «Por um capitão de navio. Está muito preocupado com um gato.» «Theo», disse ela, «se é um fantasma, tem um sentido de oportunidade péssimo. Vai bater.»
Não bateu na parede. Bateu à porta da vizinha, o que lhe pareceu mais corajoso, não sabia bem porquê. Abriu a senhora Okafor, uma atriz reformada, com um lenço roxo e um guião na mão, e quando o Theo explicou, riu-se tanto que teve de se sentar. Estava a gravar um audiolivro de aventuras para as crianças do hospital, contou-lhe, e não se tinha apercebido de que as paredes eram tão finas. «Entra», disse. «Uma voz como a minha precisa de um técnico de efeitos sonoros.» No fim da noite, o Theo tinha aprendido a fazer uma porta a ranger com uma dobradiça enferrujada, trovões com um tabuleiro de forno e chuva com um punhado de arroz.